Tenho uma admiração especial pela cultura do milho. Não sei bem explicar porquê. Talvez porque o milho me traz à memória a minha infância e adolescência, uma época em que os meus pais cultivavam esta cultura com enorme dedicação e cuidado.
Lembro-me de todo o trabalho que envolvia o milho, desde a preparação da terra até à sua chegada à tulha. Primeiro vinha a preparação do terreno e a sementeira. Depois, a rega, a sacha e a monda. Mais tarde, o corte do pondão, o corte das canas de milho e a separação das espigas das canas.
As espigas eram depois postas a secar na eira cujo chão era revestido por grandes lousas pretas. Chegava então o tempo da desfolhada, em que se separavam as espigas do folhedo. Seguia-se a limpeza do milho, feita com uma alfaia agrícola manual, o limpador. Tinha vários crivos (redes), uma grande maceira, e uma enorme roda de ferro. Enchíamos a maceira com milho, abrimos um bocado a saída do fundo e começávamos a dar à roda, manivela. O milho ia caindo e passava por varias patamares, crivos. Ao longo do processo, ia caindo o "lixo" do milho, o mais grosso cai quase que direto para o chão e o mais leve, a munha, era projetada pela "traseira" do limpador, enquanto que o milho saia limpo pela parte oposta do limpador. Caia para o chão da eira e íamos juntando o que se espalhava mais com o rodo do milho. Utilizávamos a munha para encher os travesseiros e as almofadas. Todos os anos substituímos este enchimento desta forma. Depois, o milho permanecia na eira, onde continuava a secar. Lembro-me de o meu pai mexer o milho com o ancinho, todo ele feito de madeira, para que secasse bem. Só depois era armazenado na tulha, onde ficava guardado ao longo do ano.
E aquele milho tinha uma importância enorme na vida da casa. Servia para alimentar as galinhas, inteiro, em grão, partido ou transformado em farinha, depois de moído no moinho de duas pedras. Também servia para alimentar o gado bovino.
Recordo-me particularmente de uma forma de o meu pai preparar o milho para o gado. Moía os grãos de milho, transformando-o em farinha, e misturava-a em grandes bacias cheias de água. Mexíamos bem para que a farinha se misturasse, diluisse na água e dávamos aquela mistura a beber aos animais. O meu pai dizia que aquilo era “o açúcar” do gado.
Uma parte do milho era também moída para fazer farinha destinada ao fabrico da broa. A farinha ia para a maceira, onde era amassada com água e sal e ficava a levedar durante algumas horas. Depois, a massa era dividida em grandes bolas, que eram batidas num alguidar grande de barro, previamente polvilhado com farinha. Virávamos cuidadosamente cada “bola” de massa para a pá do pão e, com todo o cuidado, colocávamo-la dentro do forno.
Só pela diversidade de utilizações do milho se percebe a importância que esta cultura tinha na vida da família. O milho era alimento para praticamente todos os seres vivos da casa: para as galinhas, para o gado e para as próprias pessoas.
E havia ainda uma coisa talvez mais importante: guardava-se sempre uma parte da melhor colheita. Escolhiam-se os melhores grãos para, no ano seguinte, voltarem a ser lançados à terra. E assim, ano após ano, o ciclo do milho se repetia.
Era assim no tempo da minha infância e adolescência. Um trabalho duro, exigente, feito muitas vezes à custa de muito esforço, mas que fazia parte da vida e da sobrevivência das famílias rurais.
Muito provavelmente, são essas memórias que ainda hoje me fazem dar ao milho a importância que dou. É por isso que continuo a valorizar e a admirar tanto esta cultura. Não vejo apenas uma planta ou uma colheita. Vejo nela memórias, trabalho, dedicação, alimento, tradição e, sobretudo, uma ligação profunda à terra e às pessoas que me ensinaram a respeitá-la.
Por isso, deixo aqui este pequeno registo das minhas memórias e partilho convosco a sementeira do milho deste ano.
Um gesto que eu tento manter ao longo dos anos em homenagem aos meus pais, ao seu trabalho e sobretudo a este alimento.














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